Está chegando a época mais gostosa do ano. Para alguns, é tempo de se deliciar com os mais diversos tipos de chocolate. Para outros, como a doceira Cíntia Pereira, proprietária da Ueba Doces, em Boa Vista, é a oportunidade de transformar criatividade em renda e garantir um reforço no caixa. Mas, para ela, a Páscoa de 2026 não será igual às outras.
Enquanto separa as embalagens e organiza os ingredientes na cozinha, Cíntia revela sua mais nova aposta: ovos de Páscoa com sabores que contam a história da sua terra. Além dos tradicionais chocolates, pistache, frutas vermelhas e o queridinho Ferrero Rocher, ela decidiu inovar com recheios de cupuaçu, murici, buriti e pupunha- frutos típicos da Amazônia e abundantes em Roraima.
A ideia surgiu ao observar um movimento recorrente no estado. “Os turistas visitam Roraima e sempre querem comprar algo regional…, mas é escasso. Daí pensei, porque não fazer o recheio de pupunha, cupuaçu, murici, buriti e açaí?”, conta a empreendedora, com entusiasmo.
“Eu já estou começando a me preparar, comprar o chocolate com antecedência para não deixar para a última hora. Além dos tradicionais, quero ver se tem saída esses regionais. Vou começar fazendo uns ovinhos pequenos de degustação para introduzir e ver o que o pessoal acha.”
A aposta de Cíntia está alinhada com as principais tendências de consumo para 2026. Mais do que nunca, os clientes buscam produtos que carreguem significado, autenticidade e uma história para contar. E é exatamente isso que os pequenos negócios de Roraima podem oferecer com mais autenticidade do que as grandes indústrias. A riqueza da sociobiodiversidade amazônica.
Sua estratégia de vendas é um case à parte. Com uma rede de clientes fiéis construída na boca a boca, ela organiza sua rota comercial com disciplina. “De quatro em quatro dias eu saio pra vender. Na quarta-feira, passo nas lojas da avenida Ville Roy, e os clientes já fica ansiosos. Na quinta-feira, vou nos órgãos dos públicos. Faço cem doces e vendo tudo. Na sexta, vou em outra instituição. E no sábado, passo nos salões de beleza. O pessoal já fica me esperando, e quando eu não vou, reclamam”, diverte-se.
“Minha mídia é a boca a boca. O cliente passa pro outro, faz encomenda, e já tenho clientes fiéis que compram para todas as festas da família.” Completa.
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Alta nos preços
A história de Cíntia, no entanto, não é feita apenas de criatividade. Ela também enfrenta os desafios de quem empreende em Roraima, especialmente em um ano em que o principal insumo da Páscoa sofreu uma alta expressiva.
O preço do chocolate acumulou aumento de 24,77% nos últimos 12 meses, influenciado pelo preço do cacau no mercado internacional, segundo dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O percentual supera a inflação geral do período e coloca o chocolate entre os itens alimentícios que mais pressionaram o bolso do consumidor. E a alta acontece a poucos meses da celebração da Páscoa, marcada para o dia 5 de abril.
“Eu trabalho com chocolate nobre, não uso cobertura fracionada. Eu tenho um padrão de qualidade e preciso manter”, explica Cíntia, apontando os desafios de repassar os custos ao cliente.
“A gente tem que repassar o preço, mas o cliente reclama, por mais que ele saiba que meu produto tem qualidade, ele reclama. O medo é a gente investir e não conseguir vender. Uma caixinha simples que custava R$ 4, hoje está R$ 7. O granulado de 400g está R$ 44. Fica difícil.”
É nesse cenário de pressão nos custos que a inovação se torna não apenas uma vantagem competitiva, mas uma necessidade para a sobrevivência do negócio. E é aí que os sabores regionais de Roraima entram como estratégia inteligente.
A analista de mercado e inovação do Sebrae Roraima, Carolina Schueng, confirma o acerto da empreendedora. “É uma tendência que segue, né? Já vinha do ano passado. São os ovos e produtos personalizados com nomes e mensagens, feitos exclusivos. E aí, nessa pegada, justamente de levar a matéria-prima local. Os sabores regionais, tanto no produto de fato quanto na finalização, na embalagem e tudo. Esses ingredientes mais regionais, como os frutos de Roraima, agregam bastante valor”, afirma a especialista.
Carolina também destaca um segmento em franca expansão: o dos consumidores com restrições alimentares. “Um mercado também bem em alta são os produtos voltados pra um público que tem algum tipo de elasticidade alimentar. Produtos sem adição de lactose, sem glúten, veganos, pra atender esses públicos que, nessa época principalmente, acabam sofrendo um pouco pra achar produtos que possam consumir”, completa.
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Capacitação do Sebrae/RR como ferramenta de motivação e gestão
Diante das dificuldades, Cíntia encontrou no Sebrae Roraima um aliado fundamental. Ela conta que participar de cursos e consultorias tem sido um divisor de águas, não só pelas técnicas aprendidas, mas pela motivação renovada a cada encontro.
“Uma vez participei de uma consultoria de como planejar o ano da sua empresa., e achei um máximo. Participei de também do workshop do IFOOD também. A gente vai, pega um pouco de cada coisa”, relembra.
Foi justamente em um desses encontros que Cíntia encontrou uma solução para um problema que a impedia de entrar no delivery. “Eu achava que, por vender brigadeiro unitário barato, não compensava colocar no iFood. Mas a consultora falou: ‘Por que você não coloca o centro de brigadeiro com 25 unidades?’. Aquilo me motivou, era uma coisa que eu não tinha pensado.”
Além das soluções práticas, a empreendedora destaca o papel motivacional dos cursos, oficinas e até os grandes eventos oferecidos pelo Sebrae/ RR, como o Decola Roraima. “Quando eu saí de casa para a palestra do Decola, por exemplo, eu fui totalmente desmotivada por causa do preço do chocolate. Quando vi tudo caro, pensei ‘como vou fazer?’. Quando terminou o evento, saí de lá muito motivada. Porque empreender é difícil demais, e a gente vai pra esses encontros, se motiva, troca ideia. É fundamental”, desabafa.
A Páscoa é uma das melhores datas para o comércio varejista em Roraima, mas o planejamento precisa começar cedo. Especialistas recomendam que os empreendedores comecem a se organizar com antecedência: contatar fornecedores, planejar as vendas, a divulgação, o marketing e, principalmente, pensar nos produtos que serão ofertados.
Para quem busca se destacar em meio à concorrência acirrada, as possibilidades de inovação vão muito além dos ovos tradicionais. Algumas apostas recomendadas pelo Sebrae Roraima incluem:
● Ovos personalizados com nomes e mensagens, criando exclusividade;
● Ovos de colher com sabores sofisticados, voltados ao público adulto;
● Kits temáticos combinando miniovos, bombons e picolés de chocolate;
● Versões inclusivas como produtos sem glúten, sem lactose e veganos;
● Parcerias criativas com artesãos locais para embalagens exclusivas, como cestas de palha ou crochê;
● Sabores regionais de Roraima, exatamente como Cíntia está fazendo, valorizando a cultura local com cupuaçu, murici, buriti e pupunha;
● Produtos para o público infantil com surpresas dentro dos ovos.
Carolina Schueng, ressaltou ainda a importância da precificação para quem tem dúvidas de como fazer. “O ideal é calcular todos os custos envolvidos, ingredientes, embalagens, tempo de produção e despesas indiretas e definir um preço que preserve a margem de lucro. Trabalhar com pré-vendas também pode ajudar a reduzir riscos, pois permite produzir com base na demanda já confirmada”. Atribuiu a analista de mercado.
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Tendências de Consumo em 2026

De acordo com o Sebrae, em 2026, o consumo prioriza escolhas conscientes, relações humanas e coerência entre o que as marcas dizem e fazem. Após instabilidades econômicas, excesso digital e mudanças sociais, as pessoas buscam produtos úteis, experiências acolhedoras e empresas transparentes. Consumidores consomem com intenção, dando vantagem a pequenos negócios pela proximidade, flexibilidade e vínculos reais.
1. Foco no humano e no comportamento real
O centro das decisões é a pessoa, não o produto. Estilos de vida diversos, famílias variadas, envelhecimento populacional e busca por bem-estar demandam soluções inclusivas. Aplique: crie produtos para diferentes fases da vida; envolva clientes na cocriação; priorize acessibilidade e linguagem clara; valorize histórias locais como diferencial.
2. Confiança, transparência e pertencimento
Confiança é essencial; marcas incoerentes perdem espaço. Pequenos negócios ganham mostrando processos reais. Práticas: seja claro sobre preços e origens; revele bastidores e pessoas; alinhe valores a ações; ofereça atendimento consistente; use depoimentos para credibilidade.
3. IA ética e humanizada
IA automatiza tarefas, personaliza e amplia capacidades humanas, sem substituir pessoas. Estratégias: automatize administração; use como assistente criativo; seja transparente com dados; combine com toque humano; monitore feedbacks.
4. Sustentabilidade prática
Consumidores cobram impacto real, não discursos. Inovam bioeconomia e economia circular. Ações: reduza desperdícios; priorize fornecedores locais; adote embalagens sustentáveis; crie refis e reparos; comunique impactos reais.
Essas tendências posicionam micro e pequenas empresas à frente. Adote-as para crescer com autenticidade.
Serviço
Para mais informações sobre como preparar seu negócio para a Páscoa e outras datas sazonais, o Sebrae Roraima oferece cursos, consultorias e materiais gratuitos nas áreas de gestão, marketing, finanças e inovação. Acesse o portal oficial ou a loja virtual do Sebrae Roraima: https://rr.loja.sebrae.com.br/ e confira a programação completa de capacitações para alavancar o seu pequeno negócio.
Fonte e imagens: SEBRAE-RR DA ASN RORAIMA– Leia a matéria completa aqui